Ventos lhe sopravam de todos os lados, nortes e de baixo e do outro lado. Dançavam por dentro os desejos e ansiedades de tudo. Cata-ventos dos olhos. A gloriosa aura dos livres. A aurora leve dos livros. Em seu peito batiam centenas e madrugadas e triunfos e tampas abertas de garrafas.
Crua e leviana, a boca do estômago a dar risadas, as plantas dos pés florindo e ganhando asas.

Quando olho no espelho, me encontro em dois: um que vejo e outro que me vê. Um com essência, bondade, invenção, grandeza; outro com ausência, trapaça e desconhecida dureza. 

Mas se completam no limite das percepções.

 

Um é guia, o outro é alvo. Nenhum deles verdadeiro, nenhum de mim absoluto. O equilíbrio do vão com o tudo. Florearam os cristais dos olhos pra traçar meu rosto, entender meu ponto de partida, para definir qual será a minha próxima resposta.

 

Quando abaixo a cabeça, me vejo em vários. Sombras que não saem do meu pé e sabem como crescer mais do que eu. Pedaços meus de escuridão. Algumas são tão fracas que quase não estão, outras vão tão longe, passam até da miopia que limita o horizonte da clareza.

Elas se escondem por trás dos entendimentos, até dos sentidos. São o pior tipo de vilão: os que estão próximo demais. As mais baixas vilãs.   

Sem juízes justos, mas também sem culpa.

São imprecisamente eu.

 

E a tantos todos me entrego, por completo, para a balança entre o que eu quero ser e o que indesejadamente sou. Com embaraço, um pouco de vergonha e um tanto de uma paz revolucionária, finalmente, entendo…

 

No eu, há o breu e há o céu.

Tão raramente podiam ser medidos, quanto mais tinham um lugar certo no armário. Não havia alfabeto, nem remetente. Às vezes possuiam face, mas eram muito mais corpo. Se revelavam nos intervalos dos meus olhares graves, geralmente depois dos suspiros dela, com seu ar de parque. Sabia que não estariam no mapa e mesmo assim olhei. Preocupado, sai na rua de poros bem abertos, mas só os via passar, acontecendo, sem endereço, sem documentos… livres. Nas pontas dos dentes que se revelam, no ritmo dos passos, nas envergaduras das bocas, na brincadeira das sobrancelhas, no acaso que muda tudo. Especialistas, terapeutas, mestrados em química, sábios da vida, aleatórios em elevadores não respondiam, apesar de dizer.

 

Se germinavam na neve, se choviam em cores, se sabiam dançar. Qual era o seu estado?

 

A metamorfose estava e confundia. Ordenava o mundo, apesar de nem ser quer entendê-lo. Constatei com felicidade: ninguém sabia de onde vinham os sentimentos. O que os alimentava, fazia crescer, ninguém sabia como alguns sumiam e como outros marcavam nossa vida para sempre. 

Mas eu celebrava a sua existência.

Ela é suave.
Com o coração de seda. Cada linhazinha parece germinada de uma planta pequena e pacata. Cruzadas em minucias e sem pressa, pra confundir minha sagacidade sem malícia. Só delícia e um tanto de abrigo.

Lá se foi o meu juízo, arrepia os fios de mim, desde os do meu braço até os da minha cabeça. Desde as linhas tracejadas dos meus limites, os barbantes que ligam uma caixa a outra da razão. Os laços amarrados nos dedos para lembrar de onde vinham os medos. Agora todos tão sem jeito…

Ela é um véu, na velha história. Bordado de carícia e bondade.

Deito no tapete felpudo, desses que pode acabar o mundo, mas que não passe essa tarde.
Estende à mesa para não fazer sujeira, mas se fizer, não há problema, a felicidade é nossa bandeira.
Pra lavar a alma, torce a minha dureza. Faz de tudo com leveza, sem manchar a noite.
Cânhamo para sustentar minha preguiça. Lã pra evitar a gripe. E se for pra transformar a madrugada, vestido verde chique.

Sorriso de brancos lençóis, carinho de fronha. Cortina pra amanhecer devagar.

E apoia o gostoso abraço no meu ombro como um cachecol. Estende a canga na praia para assistir o céu do sol.

Fio a fio, o sentimento me domina. E eu cedo a minha fibra natural.
Ela é minha pele, o meu tecido de tudo.

Esperando dar um nó em nós.

É só recordar que começa. Surpreendente, implosivo como fogos de artifício. Por dentro, revolucionário e lindo como aviõezinhos de papel. Arremessado na piscina de roupa e tudo, ou na grama, esparramado com aquelas cócegas atrás do joelho. Como a primeira vez que raspei a cabeça, me encarei sorrindo. O sol entrou pela fresta fresca e esquentou os pêlos da perna. Escada rolante. O pessoal tá me esperando na calçada. A primeira vez que ouvi Miles. Chapado. É assim, lembrar dela é como fazer sexo. Sabe aquela alegria, a despreocupação, linda, leve, intensa? Aquela sensação, nem que seja por essa breve vivência, de eterna descoberta? Então.

O ônibus estava no ponto, o gelo estava no suco de laranja, o bolo estava pronto, a brisa estava na varanda.

Os pés descalços pisam a sala de casa. Fresquinha. Noto as árvores balançando pela janela. Meio sem jeito, tímidas, mas tão belas. A ligação inesperada daquele antigo e tão querido amigo. Ah, a voz da saudade… O primeiro frio na barriga quando decola o avião. A nota de 20 sem dono, perdida, no chão. O primeiro gole de água pela manhã. A criançada zoando com a mangueira no quintal.

O sentimento me lembra as coisas mais lindas. Sabe, uma beleza que se sente. Não só com os olhos, mas com a ponta dos dedos, com a ponta do sorriso, com o espírito, com as ideias, com a vontade de viver.

Com o gostinho de primeira vez. Toda vez.

Esse sensação é de uma molecagem… Lembra aquela vez que eu respondi a professora. E ainda ri alto, mas tão alto! Hahahaha. Cachoeira. O copo de leite antes de dormir. O desequilíbrio na rede, mas, nossa, está tudo bem. E estica as pernas. O bebê não parava de sorrir pra mim. As duas únicas cadeiras da praia, vento, calor, dois copos gelados de cerveja. Dezenove horas, sexta-feira.

Cito tanto que ela me lembra, mas, nossa… nada se iguala.

Eu tava tranquilo, na minha, antes de virar todos. Resmungava minha dor magrela, mas juro que tinha tudo para ser feliz. Apareceu ela toda arrebatadora, como a onda que gela o peito. E leve como marola. Logo quando eu queria ir embora, de passagem passada, resgatou minha alma e me chamou de aurora. Nem ventava, nem chovia. Sorria… Cavucou a vivacidade, expandiu minha existência, sem nem se dar conta. Não notava, não contava, era a leveza em forma física. Passeava por sua vida, com quem vai à padaria. Preencheu a harmonia do meu café da manhã com cuidado, com açúcar mascavo. Como em um samba de roda, fez meu mundo dar uma volta. Meus olhos reluziam desde o menor brilho e amanheciam e anoiteciam e sonhavam quando ela aparecia. Cadência com a natureza, companhias de fins de tarde, toques de madrugadas. Inspiradora à toa, se tornou mais uma via na minha avenida. Me fez sentir parte do mundo de novo, me fez sentir mundo todo.

Com desejo de tudo, de vivências de mil, paraquedismo, cozinhar, estudar francês, música africana. Fez na minha cabeça uma bagunça onde se cozinhavam ideias ultrajantes, revolucionárias. Tudo! Pensava sobre o amor, sobre varandas, sobre o branco dos todos, os porta-retratos e a liberdade, as praças e a importância de sentar, os sorrisos dos velhos e as cores que nunca envelheceriam. Pensava sobre o tanto de tato que existia, naquele beijar sorrindo que só com ela eu dava. E sentia tanto e sinto muito.

A felicidade deixou de ser uma promessa. Uma nova bateria para despertar o coração que estava com defeito.
Um sentimento diamante.

Nós não conseguimos prever nada. Nós não podemos controlar
nada. Por isso, te amo incondicionalmente.

Essa noite encontrei uma blusinha sua
Toda ainda perfumada.
Mais uma vez,
Essa noite,
Sua roupa vai fazer parte
Da minha roupa de cama.

Sabe quando você apoia a mão em cima do arroz cru e relaxa? …Não?
Eu sei. E parece que to pirando nisso tudo. O barulho de chuva dos grãos que escapam parecem até o suficiente. A felicidade brinca na ponta dos meus dedos. Com esse jeito de que nada permanece, com o toque que não foge da memória e, mesmo assim, desliza tão deliciosamente da pele. Cheia da vontade de fugir para ser minha novamente.

Me entrega à tigela – hoje eu quero viver tudo. Cada curva nesse meu mundinho é um tempero que transforma a rotina, muda os horários, derruba o relógio no chão e ri. Despreocupada… Um gole de agrado que roda na taça. Eu dedico esse brinde a ela, como se não houvesse amanhã.

Essa verdade, tão linda, desperta cambaleando de saudades, amanhece ensolarada em mim. Cada dia é uma nova dela. Uma introdução surpreendente, para uma canção que encanta e me puxa o sorriso. Com graça e uma careta engraçada. A coincidência desfila nas esquinas, que eu quase vejo da nova janela. Aqui em casa, parece que foi feito para ser assim. Sorrio com o olhar nostálgico de agoras, porque sei que a felicidade é minha menina. “É ela” – a apresento aos meus pais.

Me recebe com leveza, elogio dos olhos, e me leva para trabalhar pela manhã. É o entardecer ou a madrugada que me lembra você? A felicidade parece que ignora razões e só me responde chamando pra ser seu par: “Minha alegria, estás afim de que hoje?”
Parada na porta de casa, com o cabelo bagunçado, encostada. Tão convidativa e tão aconchegante.
É… Bonita assim, que vontade de voltar! Hoje eu quero viver você.

Uma parceria doméstica, cheia dessa tolices que fazem bem, sabe? …Eu sei. Como roteiro do casal que vende conforto e adora avós. Como a descoberta de mais um cantinho de cócegas. Como a vivência de algo completo. Como o tanto que não se explica, mas teimamos em falar. Como…

Ela é tudo. É do bem e do melhor sentimento: bom saber que há tanta vida lá fora, mas que há tão mais aqui dentro.

E até fingia que não a escutava, só pra poder ouvir de novo.

Eu não preciso do seu nome, eu só preciso de você.

Já viu flor mais colorida que margarida? Eu não.

Foi um encontro por acaso mesmo, desses que a gente nunca espera que vai transformar nossos dias. Desses que mal se percebe até que germine dentro da gente e floreie.

A encontrei parada por aí, observando a vida com o sorriso fácil, de tons todos, uns que nem conheço.

Ela me deu a sensação de que no mundo tudo se colhe. É só chegar ao pé da árvore certa e pegar emprestado pra vida toda. Ah, a atmosfera com leveza, os sentimentos com beleza, cheia de bem-me-quer para todo lado. O sol no sorriso e a saia branca enredada. Aquele branco quente e confortável como o das casas dos subúrbios do Rio de Janeiro. Sabe? Ah, a cena dela me tomou por inteiro. Deixou mais confortável todo o quintal, o jardim e a varanda, me fez crer que tudo é de graça.

E não é uma graça?

Só ela e aquele verde. Simples. E quando dança e consigo roubar aquela preciosidade e meu mundo inteiro balança, meus sentidos descansam e ah… minha essência suspira. Um tempo de delicadeza.
Vôo como aviãozinho de papel, leve como seda de um véu, cortininha da antiga sala de estar.

(Nada a ver com vasos de porcelana, sem adornos quebráveis, sem dureza, sem a arrogância de costume).

Ela não tem uma só disciplina, a brisa é seu espírito, a ventania é seu batimento cardíaco. Dança dentro de mim. Um sentimento raro e tão natural. Ela tem aquele olhar de criança que encanta, uma ligação com tudo o que acontece a sua volta. Aquele lugar que poderia ser qualquer lugar. Mas não é. Ela está ali, sossegada sobre o aquele campo. Ela está ali e os dois se encaixam de um jeito bonito. Ela, forte como ele, contempla o céu de pétalas abertas. Nutrindo devagarzinho (, urgentemente) e com carinho as verdades dos seus dias.

Ah, é tão lindo de ver. Só ela. Só ela cravada no peito da terra.

Desperta devagar, enche o peito de vida e tenta entender o mundo. Com os olhos bem fechados. Estica as pernas até não poder mais. Isso, alooonga, estende a existência sua. O seu lugar. As costas se colocam no seu jeito, o barulho abafado no ouvido, a nuca acariciando a mente. Sente os dedos se somando e a palma da mão viva como nunca, a textura da cama, a temperatura e a luz que se revela ainda nas pálpebras. Amplo. Suspira e sente a luz do seu amanhecer chegar lenta, a sua alma a transpor qualquer janela. O bem vem bem devagar… Espreguiça. Essa preguiça que não deixa de ser, o ar que convida o bocejo – essa força mais contagiante depois do seu sorriso. Abre os braços como se fosse alcançar o próprio espírito, não que estivesse perdido, mas que avoava. Sem desejar demais as estrelas, claro. Se Ícaro soubesse como é bom, ia querer voar aqui pra essa cama.

Onde mal existe tempo, só horas de lua e horas de areia.

Eu adoro a confusão no cobertor das coisas não ditas, quase um divã para dois, abrigo do real e o paraíso do improvável. Eu me encontro na nossa bagunça. Alcança a periferia dos meus risos, imaginações tantas – vai além. A beirada de tudo o que toca tem a sua graça. O seu conforto, o seu embaraço. Os nós que levam nós dois longe. Na linha de um novo horizonte, um abraço com toque de saudade. Em qualquer brisa, o dia elogia os olhos, o mar beija os ouvidos.
E a vista é linda, eu sei, mas só existe por que estivemos ali. E não há nada nessa paisagem que eu não possa ver em um riso roubado. Multi-colorido.

Pra entender o quanto o mundo é grande não é preciso olhar pra longe, é preciso olhar pra dentro. E espreguiçar…

Você, por si só, menina, já é um elogio.

Um elogio para o mundo.

Rasga a alma tão fácil como rasga o lençol. Da noite. Abre um novo céu e um novo sereno. Voa tão alto ali do chão. Revela sua aura de todas as cores do mundo, o vestido verde e no riso, um farol. Uma carícia.
Diversa, divertida, roda tão despreocupada, pra jogar o meu norte pra outro horizonte. Ilumina… e aproveita o quanto pode. Colore a vista toda e me deixa de lado – ao mesmo tempo que rodopia o meu sorriso, em um espiral de coisa boa. Eu, que sempre fui tão fácil, perdi em algum lugar as amenidades. No fundo dos meus olhos, dois desconfiados, com o zelo na ponta dos dedos e o caos por dentro. Buscando colher aos poucos o carinho até nos menores sinais.

Ah, e se eu descubro… Me enche de cores quentes por dentro, me dá cadência. Um movimento incessante que me tira o sono, mas não me tira a paz.

Parece confuso, eu sei, mas é simplesmente surpreendente. Puro, claro e gostoso. É tão bom sentir na boca a resposta que se embaraça e a vontade que me devassa.
Tudo muito verdadeiro: é tão natural eu gostar de você.

Em tudo o que faz, amplia o significado. Olha lá. Livre, desregrada, o cabelo que, lindo, tão deliciosamente me escapa. Que maravilha, mais um riso, quem tem culpa?
O meu bem querer vem de graça. Enquanto você não entende, eu só quero poder provar isso toda vez. Vem fazer parte da solução comigo e deixa que a música que toca do lado de dentro dos ouvidos mande.

Eu queria que você chegasse logo para ler isso aqui. Mas que não fosse tão cedo.
Parabéns.

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