É só recordar que começa. Surpreendente, implosivo como fogos de artifício. Por dentro, revolucionário e lindo como aviõezinhos de papel. Arremessado na piscina de roupa e tudo, ou na grama, esparramado com aquelas cócegas atrás do joelho. Como a primeira vez que raspei a cabeça, me encarei sorrindo. O sol entrou pela fresta fresca e esquentou os pêlos da perna. Escada rolante. O pessoal tá me esperando na calçada. A primeira vez que ouvi Miles. Chapado. É assim, lembrar dela é como fazer sexo. Sabe aquela alegria, a despreocupação, linda, leve, intensa? Aquela sensação, nem que seja por essa breve vivência, de eterna descoberta? Então.
O ônibus estava no ponto, o gelo estava no suco de laranja, o bolo estava pronto, a brisa estava na varanda.
Os pés descalços pisam a sala de casa. Fresquinha. Noto as árvores balançando pela janela. Meio sem jeito, tímidas, mas tão belas. A ligação inesperada daquele antigo e tão querido amigo. Ah, a voz da saudade… O primeiro frio na barriga quando decola o avião. A nota de 20 sem dono, perdida, no chão. O primeiro gole de água pela manhã. A criançada zoando com a mangueira no quintal.
O sentimento me lembra as coisas mais lindas. Sabe, uma beleza que se sente. Não só com os olhos, mas com a ponta dos dedos, com a ponta do sorriso, com o espírito, com as ideias, com a vontade de viver.
Com o gostinho de primeira vez. Toda vez.
Esse sensação é de uma molecagem… Lembra aquela vez que eu respondi a professora. E ainda ri alto, mas tão alto! Hahahaha. Cachoeira. O copo de leite antes de dormir. O desequilíbrio na rede, mas, nossa, está tudo bem. E estica as pernas. O bebê não parava de sorrir pra mim. As duas únicas cadeiras da praia, vento, calor, dois copos gelados de cerveja. Dezenove horas, sexta-feira.
Cito tanto que ela me lembra, mas, nossa… nada se iguala.